Conheci o pai de meu bebê em 2007. O início foi difícil. Ele era encantador, divertido, companheiro, aglutinador, politizado... mas eu quase não tinha dúvidas de que sairia com o coração partido. E, ao mesmo tempo, não sentia vontade de abandonar o barco sem aprofundar a viagem.
O aprofundamento chegou no início do carnaval de 2008. Estávamos no meio do bloco "Bagunça o Meu Coreto", na Praça São Salvador, com muuuuita gente em volta, quando da boca de meu amor começaram a jorrar palavras aparentemente sem sentido. "Vamos parar com essa enrolação". "Vamos morar juntos". "A gente pode comprar uma casa maior". "Já estamos velhos. Devemos ter filhos logo". Não entendi nada. Ele não havia bebido o suficiente (ainda) para delirar. As línguas mais ferinas (dentre os amigos queridos) ousaram dizer que foi medo de que o clima carnavalesco gerasse a oportunidade de eu reavaliar a furada em que estava me metendo. Mas ele não costumava ser impulsivo... Concordei laconicamente com tudo o que ele dizia e esperei o outro dia para ver se a insanidade continuava. Como teve seguimento, e era tudo que meu coração queria, dali pra frente a ternura e o companheirismo só se aprofundaram. Depois do carnaval, viajei por um mês e, na volta, me mudei para sua casa.
Resolvemos ter nosso bebê "depois de 2009". Isso poderia ser qualquer coisa, mas inevitavelmente significaria mudanças. Tenho endometriose. Por conta dela, perdi um ovário e uma tuba uterina em 2006. Desde então, tomava pílulas de uso contínuo e, portanto, não menstruava, a fim de inibir a propagação da doença. Meu quadro clínico associado à minha idade (36 anos) entrevia dificuldades pela frente.
Para não perder muito tempo, procurei, então, uma especialista em reprodução. Dra. Edna Pottes. Eu recomendo. Parei de tomar a pílula em março de 2009, quando a procurei para a primeira consulta. Tudo apontava para um bom tempo de preparação à frente: vários meses ainda sem menstruar; algum tempo estimulando a ovulação; alguns meses acompanhando o ciclo; sem sorte, outras tentativas alternativas. Tudo isso com constantes treinamentos, é claro, a melhor parte.
Por recomendação médica, tomei remédios para estimular a retomada de meus ciclos. Primeiramente Provera, depois Cicloprimogyna. Minha primeira menstrução (depois de 2 anos) veio no dia 13 de maio. Sorte. Comecei a monitorar meu ciclo (da metade em diante) através de ultrassom seriada. No dia 27 de maio, o médico avisou: "você está com os folículos ovulares crescidos... quase estourando...", um linguajar assustador que significava que eu estaria no pico da ovulação a qualquer momento. Ele estava querendo dizer, em idioma leigo: "vai trepando, que tá valendo!" E meu marido estava em Florianópolis, apresentando trabalhos em um congresso, e só voltaria 5 dias depois. "Ai, ai, ai", pensei, "um mês de controle pode ser jogado fora...". Não fiquei tão chateada assim, pois, após tanto tempo sem menstruar, conhecer novamente meu corpo já era uma vitória, que serviria muito às nossas tentativas de engravidar.
Duas noites depois, a querida avó de meu companheiro faleceu. Estava doente há muito tempo, sofrendo muito. Iria descansar, finalmente. Ele adiantou seu retorno para o sábado, dia 30. Sou atéia, areligiosa. Mas qualquer ser mais interessado em espiritualidade pode ficar à vontade para avaliar que, neste episódio e em suas aparentes coincidências, os bons espíritos cumpriram seu papel. Meu bebê foi concebido neste final de semana. Na nossa casa. A mesma casa em que sua avó morava, até mudar-se anos antes para a clínica onde sua saúde era monitorada e tratada. Começava uma nova fase de nossa felicidade.
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